Qual o texto definitivo de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec?

Quando iniciamos o projeto de tradução das obras de Allan Kardec para o chinês, a primeira questão que se colocou foi determinar quais edições destas obras deveriam ser utilizadas como texto modelo, começando, naturalmente, por O Livro dos Espíritos.

As modificações que ocorreram da primeira edição (1857) para a segunda (1860) são vastas. Considerando apenas o número de questões numeradas, temos um salto de 501 perguntas para 1019. Somando-se a isso os inúmeros comentários e ensaios adicionais que o codificador adicionou à obra, o tamanho total do livro mais do que dobrou.

Apesar de a segunda edição ter estabelecido o formato geral da obra com que os leitores de hoje estão acostumados, incluindo a divisão em quatro livros (ou partes), os temas abordados e o número efetivo de perguntas (numeradas e não-numeradas), edições posteriores, no entanto, lançadas ainda em vida por Kardec, incorporaram um número de modificações que devem ser refletidas nas edições e traduções modernas.

Tendo começado o trabalho de tradução em 2017, dispusemo-nos a analisar as modificações nas várias edições disponíveis, seja em versão digital, seja nos exemplares impressos originais que viemos pessoalmente colecionando nos últimos anos.

Neste esforço de juntar as diversas edições existentes, chegamos a identificar dezesseis edições numeradas que foram lançadas com Kardec ainda em vida, além de uma Nouvelle édition lançada em 1861. Saliente-se também que a segunda edição (1860) apresenta uma versão com 1018 questões numeradas e uma outra com 1019 questões. A décima-sétima edição, de 1869, foi lançada já depois da desencarnação de Allan Kardec, como se deduz do comentário na Revue Spirite de maio de 1869.

Conseguimos então juntar todas a edições identificadas, exceção feita à sétima, oitava e décima-segunda edições. Quando já havíamos terminado a tradução de O Livro dos Espíritos (tanto para o inglês quanto para o chinês) as versões digitalizadas destas edições foram finalmente disponibilizadas pela Biblioteca Nacional da França, sem que isso trouxesse qualquer necessidade de modificação no trabalho de tradução realizado, como veremos mais para frente.

Elencamos abaixo todas as edições de O Livro dos Espíritos que vieram à luz entre os anos de 1857 (primeira edição) até 1869 (desencarnação de Allan Kardec), com os respectivos links para que os leitores possam também compará-las:

Afinal, quantas questões numeradas há em O Livro dos Espíritos?

O primeiro problema que gostaríamos de abordar é o total de perguntas numeradas existentes em O Livro dos Espíritos, um tema que gera frequentes discussões.

Em um minucioso artigo escrito para o jornal Mundo Espírita, da Federação Espírita do Paraná, Enrique Baldovino analisa um exemplar da segunda edição que ele entende ser a primeira impressão da segunda edição de O Livro dos Espíritos. Neste exemplar, são renumeradas as questões a partir de 1012 (esta passa a ser a questão 1011), totalizando 1018 questões numeradas. Da segunda impressão (da segunda edição) em diante, o total de questões numeradas volta a ser 1019.

Como no cólofon dos exemplares não há a data em que foi feita a impressão, não é possível saber pela simples análise dos livros qual foi feito antes.

Faz sentido supor que a versão com 1018 perguntas numeradas tenha vindo antes, já que a partir da terceira edição (1860) o total de 1019 não foi alterado, exceto pela Nouvelle édition de 1861. Esta foi publicada aparentemente entre a quarta e quinta edições, e traz novamente o total para 1018 questões, mas mantém-se, em todo o resto, idêntica à quarta.

A quinta edição, além de retornar à contagem de 1019 perguntas, trata também em sua errata sobre a questão 1015, acerca das almas atormentadas (ou seja, esta inconsistência na numeração das perguntas era muito provavelmente do conhecimento de Kardec). Uma vez que a numeração não mais sofreu alterações, permanecendo a partir da quinta edição num total de 1019 perguntas numeradas, é razoável que Kardec tenha implicitamente admitido a questão não-numerada que se sucede à pergunta 1010 como sendo a de número 1011, justificando o total de 1019 perguntas, vigente a partir de então.

Modificações ocorridas ao longo das várias edições

Como nosso objetivo era de identificar a partir de qual edição o texto de O Livro dos Espíritos não mais foi modificado por Allan Kardec, detivemo-nos na comparação da segunda edição com as edições posteriores. A comparação específica entre a primeira e segunda edições pode ser encontrada em um interessante artigo de Gustavo Daré e Vital Ferreira, e também no recém-lançado livro de Luís Jorge Lira Neto, O Livro dos Espíritos, uma análise comparativa, que recomendamos enfaticamente a todos.

Aguardamos, aliás, com imenso interesse o lançamento deste último livro, para verificar se o autor havia identificado alguma modificação que nos tivesse escapado anteriormente. Exceto pelo fato de que Luís Jorge Lira Neto já levou em consideração algumas edições que somente pudemos acessar após termos terminado a tradução (o que não resultou em nenhum problema, como mencionado acima), felizmente não havia nenhuma modificação que já não tivéssemos elencado no apêndice que escrevemos sobre o processo de tradução para o inglês de O Livro dos Espíritos, na edição lançada em março de 2019.

Enumeramos abaixo o histórico das modificações identificadas, de acordo com a cronologia das edições:

  • Terceira edição (1860): modificação na última página do capítulo V, Livro II (questão 222, p. 107 dos originais em francês). Os dois últimos parágrafos são ligeiramente modificados, e são também adicionados ao final mais quatro novos parágrafos, tratando da passagem do evangelho de João em que Jesus conversa com Nicodemos.
  • Terceira edição (1860): Foram adicionados quatro novos parágrafos ao final do comentário de Kardec sobre a questão 613 (pp. 263–264)
  • Quinta edição (1861): No Livro III, capítulo XII (p. 377), a primeira seção do capítulo chamava-se originalmente “Questions morales diverses” até que Kardec mudou o título para “Les vertus et le vices” a partir da 5ª edição (1861).
  • Quinta edição (1861): No Livro III, capítulo XII (p. 384), questão 911, a partir da 5ª edição (1861), o sujeito da última oração do primeiro período (oração após o ponto-e-vírgula) foi modificado de “ils” para “elles”, por fazer referência à palavra “personnes”, que é feminina em francês. Essa mudança não é relevante para as versões traduzidas, que sempre fizeram a correção automaticamente.
  • Quinta edição (1861): Kardec inclui uma Errata, repetida na 6ª edição, mas que não foi mantida em edições posteriores.
  • Quinta edição (1861) e oitava edição (1862): Das modificações listadas na Errata, apenas a última (questão 586, p. 252, onde a locução “et intuitive” foi suprimida) foi incorporada ao texto a partir da oitava edição. Note-se que a sexta e a sétima edições, posteriores à Errata, ainda não incorporavam esta modificação. Em nossa edição em inglês, incluímos o fac-símile da Errata (assim como sua tradução) sob a forma de um apêndice. Além do valor histórico, algumas das modificações propostas ali por Kardec tratam de pontos relevantes, conquanto a maior parte delas não tenha sido incorporada ao texto definitivo.
  • Quinta edição (1861): A partir da quinta edição Kardec modificou o comentário entre parênteses ao final da resposta à questão 137 (p. 59). Note-se a ausência do parêntese de fechamento do comentário, lapso que perdurou por todas as edições posteriores.
  • Quinta edição (1861): desta edição em diante, foi incluída uma referência à seção II da Introdução, na nota de rodapé em que Kardec discorre sobre a questão 139 (p. 60).
  • Quinta edição (1861): Na questão 988 (p. 427), a preposição pour (que significa para) foi substituída por par (que significa por). A modificação em praticamente nada altera o sentido geral, mesmo em línguas neo-latinas. Entre as traduções em português, as de Guillon Ribeiro e Evandro N. Bezerra usam “por”, enquanto a de Herculano Pires e a do casal Brites usam “para”. Em outras línguas a questão nem chega a ser cogitada, pois depende da escolha particular para a tradução da expressão “avoir besoin de faire” e regência preposicional associada (caso também haja transitividade indireta). Com efeito, nas traduções que fizemos (inglês e chinês), a questão não é relevante.
  • Oitava edição (1862): A partir desta edição, Kardec adiciona uma frase ao final de seu comentário à questão 51 (p. 20), “et cela avec plus de raison”.
  • Oitava edição (1862): A partir desta edição, na resposta da segunda subpergunta da questão 218 (última linha antes da questão 219), Kardec troca a maiúscula da palavra Esprit por uma minúscula, esprit. Esta modificação tende a ser ignorada nas traduções. Via de regra, o tratamento que é dado à palavra mantém a consistência com suas ocorrências anteriores nesta mesma questão. As traduções de Guillon Ribeiro, Herculano Pires, Evandro N. Bezerra, assim como a recente traducão de João da Costa Brites e Maria da Costa Brites, mantêm a palavra grafada com letra maiúscula, em linha com as ocorrências anteriores. Em nossa tradução para o inglês mantemos a palavra iniciando-se com letra minúscula, consistentemente com o uso que se faz desta acepção em particular ao longo do livro (e como fazem, aliás, todas as traduções em inglês). Em chinês não existe a distinção entre caracteres maiúsculos e minúsculos.
  • Décima edição (1863): A partir da décima edição , a nota explicativa que aparecia ao final dos Prolegômenos (ocupando o topo da página XLIV) deixou de ser incluída. Por constituir uma nota de cunho puramente informativo e ocupar o verso do folio antes do início do corpo principal do livro, acreditamos ter sido esta mudança apenas um lapso de diagramação, razão pela qual optamos manter a nota em nossas traduções, como faz aliás a recente tradução de Evandro Noleto Bezerra (FEB), entre outras. Note-se que na décima edição não aparece nem mesmo o número da página ao alto, reforçando a suspeita de se tratar apenas de um descuido editorial.

Sendo assim, exceto por esta última mudança que cremos ter sido apenas um lapso, o texto do livro não mais passou por modificações a partir da oitava edição até a desencarnação de Kardec, que se deu após o lançamento da décima-sexta edição (1869). Quando fizemos nossa tradução, ainda não havíamos analizado um exemplar da oitava edição, razão pela qual nos baseamos no texto da nona (1863), de idêntico teor.

A utilização da oitava edição francesa como texto-base é extremamente conveniente, uma vez que a versão digitalizada do exemplar oficial depositado por Kardec na própria Bibliothèque nationale de France (à época, Bibliothèque imperiale) está disponível para todos através do link https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k322467k.pdf?download=1 . Além de ser a fonte mais fidedigna possível, o arquivo está em altíssima resolução (o que explica o tamanho do arquivo PDF, com mais de 100 MB).

Inconsistências de copydesk de O Livro dos Espíritos

Além das modificações que mencionamos acima, precisamos também lidar com algumas inconsistências internas que perduraram por todas as edições de O Livro dos Espíritos.

São geralmente discrepâncias no título de uma seção de um determinado capítulo, que aparece de uma forma no cabeçalho do capítulo e de outra diferente no texto. Outro tipo de inconsistência ocorre quando alguma seção de um capítulo não foi elencada (portanto não aparecendo) no cabeçalho do capítulo que lista as seções, apesar de a seção estar claramente demarcada com um título no corpo do texto. Por último, uma seção pode ter um título no corpo do texto e outro na tábua de matérias.

Mantiveram-se tais discrepâncias, pelo que analisamos, em todas a edicões, da segunda até a décima-sétima. São elas:

  • Livro II, capítulo III, seção 1: É chamada de “L’âme après la mort, son individualité; vie eternelle” no cabeçalho e apenas “L’âme après la mort” no texto.
  • Livro II, capítulo VI: No cabeçalho a seção 7 é listada com “Rapports sympathiques et antipathiques des Esprits,” mas no texto aparece “Rapports sympathiques et antipathiques des Esprits. Moitiés éternelles”.
  • Livro II, capítulo VII: No cabeçalho a seção 2 é listada como “Union de l’âme et du corps. Avortement”, enquanto no corpo do texto aparece apenas como “Union de l’âme et du corps”.
  • Livro II, capítulo IX: No corpo do texto do capítulo contam-se treze seções no total, mas a seção “Pressentiments” (sétima seção) não foi listada no cabeçalho do capítulo (que enumera apenas 12 seções).
  • Livro III, capítulo 1: No cabeçalho a seção 2 é denominada “Source et connaissance de la loi naturelle”, ao passo que no texto é chamada de “Connaissance de la loi naturelle.”
  • Livro IV, capítulo 1: No cabeçalho, a seção 3 é chamada de “Déceptions. Affections Brisées”, mas aparece no texto como “Déceptions. Ingratitude. Affections Brisées.”
  • Livro IV, capítulo 2: No corpo do texto identificamos nove seções, mas a oitava seção, “Résurrection de la chair”, não foi listada no cabeçalho do capítulo (onde constam, portanto, apenas oito seções, em vez de nove).
  • Livro IV, capítulo II: na tábua de matérias no final das edições francesas, a última seção do capítulo II aparece denominada “Paradis, enfer, purgatoire. Paradis perdu. Péché original”, ao passo que no texto aparece simplesmente “Paradis, enfer, purgatoire”.

O tratamento que demos a estas discrepâncias nas edições em inglês e chinês foi o seguinte:

  • Quando o título de uma seção aparece de uma forma no cabeçalho e de outra forma no corpo do texto (cinco ocorrências), utilizamos a forma mais extensa em ambos os lugares.
  • Quando o título da seção aparece de uma forma no corpo do texto e de outra na tábua de matérias (uma ocorrência), mantivemos o título como está no corpo do livro.
  • Quando uma seção não é computada no cabeçalho (duas ocorrências), incluímos a seção que havia sido pulada na contagem, renumerando as seções subsequentes, de modo a garantir a consistência na numeração.

Fazemos isso porque incluímos os números das seções não apenas no cabeçalho, mas também no corpo do texto. Além de corresponder ao padrão editorial americano, tal prática também facilita a leitura e a localização das seções dentro do capítulo.

Pelo que pudemos observar, as traduções existententes não discutem esta questão, tratando-a de forma variada, seja mantendo as inconsistências, seja evitando a numeração das seções tanto no cabeçalho quanto no corpo do texto, por exemplo.

2 Replies to “Qual o texto definitivo de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec?”

  1. Artigo detalhado e claríssimo, uma aula de tradução e cuidado com o texto original. Encantador. Adoraria ver uma edição da Luchnos do pentateuco espírita em português.

  2. O artigo revela um minucioso cuidado com a transposição, o mais fidedigna possível, das obras de Kardec atraves da barreira dos idiomas. Trabalho que merece todo nosso respeito, considerando sua dimensão frente à humanidade.

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